Depoimento

Pais que transformaram dor em trabalho ao próximo.
por Yoshie Hattori – São Paulo  

 

A)  Como você chegou à Doutrina Espírita?

– Cheguei à doutrina espírita com o desencarne da minha filha Renata com aneurisma cerebral, aos 9 anos de idade,  na madrugada  após o domingo de dia dos pais de agosto de 1997. Ela ficou internada com morte cerebral até a quinta feira, dia 14/08/1997 às 13:45 horas  quando veio a óbito.

Perdi totalmente a razão quando recebi o diagnóstico da morte cerebral e não aceitei o pedido da doação de órgãos, pois tinha a certeza de que ela voltaria a viver no corpo físico.

Eu a chamava de volta o tempo todo que fiquei ao seu lado na UTI (dia e noite), conversava com ela, lia livros, com a certeza irracional de que ela voltaria a viver fisicamente.

Meus familiares, parentes, amigos, funcionários do hospital, foram solidários conosco ficando ao nosso lado o tempo todo em vigília, orando e vibrando por nós.

No dia 13/08 um amigo muito querido me disse: “Deixe a Renata viver, deixe-a seguir o seu caminho, liberte-a!”…

Ao lado do leito da Renata estava um menino de um ano e meio mais ou menos que vivia no hospital desde que nasceu, pois dependia de aparelhos para respirar. Eu olhava para ele, olhava para a Renata e dizia para mim mesma, ela era tão alegre, tão cheia de vida, não posso querer que ela ficasse presa num corpo físico na mesma situação do menino e disse-lhe que se este era o seu caminho eu a estava libertando…

Naquela noite vi que os batimentos cardíacos começaram a enfraquecer… E no dia seguinte ela retornou à pátria espiritual.

Mesmo após a sua partida eu a chamada de volta, tamanho era o meu desespero pelo apego material, diante da separação física, até que um dia outro amigo espírita me disse: “é muito duro, mas tenho que te falar que a Renata se encontra no plano espiritual, num leito, se contorcendo de dor”… Eu estava provocando esta dor na minha filha que eu tanto amava, com o meu sofrimento desesperado!

A partir de então eu ainda chorei muito e ainda choro de saudade, mas não de desespero.

Quero que ela esteja feliz e que a sua partida não tenha sido em vão… pois a dor nos traz um enorme aprendizado…

Logo após a nossa separação física, amigas me levaram a frequentar um centro espírita recebendo tratamento e iniciando cursos para tentar entender o porquê de termos que passar por tamanha dor…

       

B)  O que as mensagens trouxerem em benefício para você e família?

– Em junho de 1998 cheguei pela primeira vez no trabalho de psicografia no Pronto Socorro Espiritual “Pais e Filhos”, me arrastando com a dor da saudade.  Eu não tinha o conhecimento desta ferramenta da espiritualidade e cheguei muito desconfiada. Entrava na sala e nada dizia com medo de que aquilo que eu falasse lá dentro seria a dica para que o médium me passasse uma mensagem supostamente da Renata.

Assim foi durante seis meses, ouvindo as mensagens que vinham para outros familiares e cada palavra lida me servia de consolo.

No dia 05/12/1998 quando entrei na sala de entrevista, o Orlando me perguntou quem era um senhor que ele me descreveu perfeitamente como sendo a fisionomia do meu avô que desencarnou em 10/06/1996, e que a Renata estava ao seu lado, mas que ele não conseguia ver o rostinho dela, pois ela tinha uma luz prateada ao seu redor que ofuscava a visão.

Saí em prantos da sala, mas de alegria em receber notícias boas da baixinha…

Neste dia ao chamar o nome da Renata na leitura das mensagens, meu coração disparou, mas de alegria por ter a certeza de que a minha filha continuava viva.

A cada mensagem que eu recebia, ia me fortalecendo cada vez mais, assim como os meus familiares, pois o meu desespero causava dor ao meu marido e a minha outra filha.

Cada palavra da mensagem da Renata era uma lição a seguirmos, sempre em busca da nossa melhora física e mental.

Era um convite que ela nos fazia para que seguíssemos os ensinamentos de nosso Mestre Jesus, colocando em prática o amor e a caridade e nosso autoconhecimento.

Que a alegria e o amor que ela transmitia a todos com quem convivera nos servissem de lição.

         

C)  A partir das mensagens você apenas frequentou a psicografia?

– Junto com o tratamento espiritual, que fazia em outra casa espírita, continuei com o auxílio médico e psicológico que iniciei logo após a passagem da Renata, pois esse trauma desencadeou a síndrome do pânico.

O amparo e o carinho que recebemos de todos nesta abençoada família que é o Pronto Socorro Espiritual Pais e Filhos, resolvi nela continuar o tratamento espiritual e os cursos que tanto nos auxiliam a entender esse processo chamado “morte”. Por tudo que recebemos e continuamos a receber, desejamos retribuir auxiliando em todas as atividades onde se fizesse necessário.

Iniciei secretariando a Área de Ensino, na organização dos cursos.

O entendimento que a doutrina espírita nos traz sobre a necessidade de nos conhecermos e nos transformarmos interiormente, vencendo nossos obstáculos, aproveitando a oportunidade de mais uma reencarnação, nos auxiliam nesta busca do “porque” de tamanha dor.

Qualquer atividade que façamos com o objetivo de auxiliarmos ao próximo somos muito beneficiados, recebendo energias que nos fortalecem a continuar esse aprendizado.

 

D)  Além da Área de Ensino, quais as outras atividades que você exerce no Pais e Filhos?

– Eu e meu marido auxiliamos nas diversas atividades na casa, como na cesta básica, na psicografia, nos passes, no trabalho mediúnico, com muito amor e carinho que são as ferramentas que a Renata nos deixou.

 

E)  Você tem por hábito ainda buscar uma mensagem da sua filha, passando pelo registro? Já teve alguma mensagem de sua filha mesmo não requerendo a mensagem?

– Hoje não solicito mais a ficha para passar no registro, pois sei que muitas mães que chegam a esta casa com a dor muito maior do que a que passei, precisam muito mais deste consolo. E nas mensagens que os familiares recebem sempre uma palavrinha serve para me confortar.

Choramos junto aos familiares que recebem a mensagem, pois conseguimos avaliar esse momento sublime que é ter a certeza de que nossos amados entes queridos continuam vivos e tentam fazer com que sigamos nosso caminho também, pois eles continuam com a sua rotina.

Já recebi mensagens da Renata, mesmo não passando pelo registro, comprovando que quem dirige este trabalho da psicografia não somos nós trabalhadores físicos, mas sim a equipe desencarnada. Somos apenas instrumentos da espiritualidade auxiliando na organização do trabalho no lado de cá. 

F)   Para finalizar Yoshie, quais as palavras que você poderia endereçar às pessoas que vivenciam a mesma dor que lhe trouxe ao Espiritismo?

– Quando conseguimos vencer o nosso egoísmo, conseguindo enxergar que muitos passam por dificuldades diversas não só pelo desencarne de entes queridos, mas por outras que talvez para nós pareça banal, mas naquele  momento é apenas essa dor que ele conhece, sendo assim um fardo muito pesado pra ele.

Abrindo as portas de nosso coração, deixamos que benfeitores espirituais se aproximem e nos auxiliem, eles literalmente nos carregam no colo.

Eles estão sempre ao nosso lado, mas se não dermos abertura aceitando o seu auxílio nosso sofrimento é muito maior. Podemos sentir a presença deles, como se estivéssemos sendo carregados, e dia a dia, vamos sentindo que nossos pés começam a tocar o solo.

Tive a bênção de ter tantos amigos e familiares ao nosso lado, que desde o início nos auxiliaram a que busquemos enxergar que muitos passam por dores muito maiores que a nossa.

Começamos a frequentar uma casa assistencial distribuindo sopa para as crianças carentes, onde ao conversarmos com cada criança, abraçando-as, era como se estivéssemos abraçando a Renata.

Vencer essa dor depende de nós, da nossa vontade em continuarmos a nossa jornada evolutiva. Essa dor é uma mola propulsora para nos tornarmos pessoas melhores a cada dia, precisamos fazer nossa parte querendo melhorar, aprender a conviver com essa saudade, procurando auxílio médico, psicológico e espiritual na religião onde se sinta bem, que encontre paz interior.

Quando nós trabalhadores vemos uma mãe que chegou nesta casa se arrastando com a dor da saudade e que hoje, ao frequentarem as palestras públicas, os cursos, voltam a sorrir e ter novamente aquele brilho no olhar, isto nos traz muita alegria.

Somos todos uma família que se abraça, que chora junto e que luta junto!

Lutemos para transformar essa dor na alma e no físico em Luz… um dia nos reencontraremos…. esta separação é apenas um “Até breve” do físico, pois espiritualmente estamos muito mais próximos.

Sintam nossos amados presentes, abraçando-os com o pensamento.

Termino com um ensinamento de Emmanuel, do livro “Vinha de Luz”,
psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier, lição 155 – “Tranquilidade”:

…“A Terra é escola de trabalho incessante.

Obstáculos e sofrimentos são orientadores da criatura.

É indispensável, portanto, renovar-se a concepção da paz, na mente do homem, para ajustá-lo à missão que foi chamado a cumprir na obra divina, em favor de si mesmo.

Conservar a paz, em Cristo, não é deter a paz do mundo. É encontrar o tesouro eterno de bênçãos nas obrigações de cada dia. Não é fugir ao serviço, é aceitá-lo onde, como e quando determine a vontade Daquele que prossegue em ação redentora, junto de nós, em toda a Terra.”…

 

 

Renata_Yoshe